quinta-feira, 3 de maio de 2018

Os cuidados paliativos no âmbito do Sistema Único de Saúde


Por Suele Manjourany Silva Duro* 


O envelhecimento populacional e a expectativa de vida têm crescido de forma progressiva nos últimos anos, principalmente pela contribuição da ciência e pelos avanços da medicina. Tal fato tem originado modificações no padrão das doenças, com aumento da prevalência de doenças crônicas não transmissíveis, entre as quais se destacam doenças cardiovasculares, cerebrovasculares e câncer.1 Em consequência, um número maior de indivíduos idosos tem apresentado doenças crônicas e progressivas.2 A previsão é de que, dentro de poucos anos, pela primeira vez na história da humanidade, o número de pessoas com mais de 65 anos será maior que o de crianças menores de 5 anos. A expectativa para 2030 é de mais de 1 bilhão de idosos, principalmente nos países em desenvolvimento.3
Com duração prolongada e com capacidade de provocar diversas incapacidades, as doenças crônicas estão entre as principais causas de morte no mundo. Em 2011, a Organização Mundial da Saúde (OMS) registrou que, dos 54,6 milhões de mortes por ano no mundo, 36 milhões são por doenças crônicas não transmissíveis, com destaque para câncer, doenças cardíacas, doenças respiratórias, HIV/AIDS e diabetes mellitus.3 Com uma população de 206 milhões de habitantes, o Brasil registra 928 mil mortes por doenças crônicas, ou seja, 73% das mortes no país acontecem devido a essas enfermidades.4
Com isso, o indivíduo acaba por vivenciar um sofrimento até a sua morte e esta é a principal razão pela qual a abordagem paliativa deve ter alta prioridade diante de doenças fora da possibilidade de cura.5 A OMS define cuidado paliativo como uma assistência promovida por uma equipe multidisciplinar e que deve ser oferecido ao paciente e à sua família diante de doenças ameaçadoras da vida. Essa abordagem promove a melhoria da qualidade de vida, mediante a prevenção e o alívio do sofrimento, detecção precoce e tratamento de sintomas sejam eles físicos, psicológicos, sociais e espirituais.6
Diante desse retrato, os cuidados paliativos se apresentam como uma modalidade de assistência que vem se desenvolvendo de forma acentuada nos últimos anos, já que surgem com o pressuposto de prevenir e diminuir o sofrimento dos doentes e de sua família, atendendo às suas diversas necessidades.7 No Brasil, alguns serviços de saúde oferecem cuidados paliativos a seus pacientes, especialmente  durante a internação hospitalar, no entanto esse cuidado ainda é pouco oferecido à população pela atenção básica. De acordo com a Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer, estabelecida pela Portaria nº 874/2013, os cuidados paliativos deveriam estar inseridos em todos os níveis de atenção à saúde no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), garantindo, com isso, o direito integral, equânime e universal à saúde.8
Considerando as evidências substanciais de que a integração dos cuidados paliativos, seja em combinação com o cuidado padrão ou como foco principal de cuidados, pode levar a melhores resultados ao paciente e cuidador e ao uso reduzido de cuidados intensivos,9 é importante que os profissionais de todos os níveis de assistência do SUS incorporem essa prática no cotidiano dos serviços de saúde.

Referências
  1. Faria JAM, Ferreira LG et al. Perfil dos pacientes com indicação de cuidados paliativos internados no Hospital Júlia Kubistchek. Rev Med Minas Gerais. 2015; 25(1):25-29.
  2. Victor GHGG. Cuidados paliativos no mundo. Rev Bras Cancerol. 2016; 62(3):267-270.
  3. Marcucci FCI, Cabrera MAS et al. Integração dos cuidados paliativos no sistema de saúde: o modelo australiano e aprendizagens para a implantação no Brasil. Rev Saúde Públ Paraná. 2016 jul;17(1):56-64.
  4. Worldwide Palliative Care Alliance. Global atlas of palliative care at the end of life. Londres: WPCA, 2014.
  5. World Health Organization. Monitoreo de avances en materia de las enfermedades no transmisibles. Genebra: OMS, 2017. [acesso em 15 mar 2018] Disponível em: http://www.who.int/nmh/publications/ncd-progress-monitor-2017/en
  6. World Health Organization. National cancer control programmes: policies and managerial guidelines. 2nd. ed. Genebra: OMS, 2002.
  7. Matsumoto DY. Cuidados paliativos: conceito, fundamentos e princípios. In: Carvalho, RT; Parsons, HA, organ. Manual de cuidados paliativos. 2. ed. ampli. e atual. Porto Alegre: Sulina; 2012. p.23-30.
  8. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria no 874, de 16 de maio de 2013. Institui a Política Nacional para a Prevenção e Controle do Câncer na Rede de Atenção à Saúde das Pessoas com Doenças Crônicas no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Diário Oficial [da] União, Brasília (DF), 2013 maio 17, Seção 1:29-132.
  9. Mendes EC, Vasconcellos LCF. Cuidados paliativos no câncer e os princípios doutrinários do SUS. Saúde debate. 2015 jul-set;39(106):881-892. 

* Suele Manjourany Silva Duro – Professora da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Pelotas e Editora Associada da revista Epidemiologia e Serviços de Saúde.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

O resumo como aliado na difusão do artigo científico




Por Laeticia Jensen Eble* 

Entre as partes do artigo científico, o resumo é um elemento que por diversas vezes não recebe a merecida atenção dos autores. No entanto, é considerado por muitos manuais de redação científica como a parte mais lida do artigo científico depois do título,1 e o parágrafo mais importante do artigo científico, na medida em que é por meio dele que o leitor terá seu  primeiro contato com um artigo e decidirá se vale a pena ou não ler o trabalho inteiro.2
É preciso ter em mente que o resumo é como um cartão de visitas para o artigo. Se você quer que seu artigo aumente exponencialmente as chances de ser lido, especialmente no mundo virtual, é preciso entender sua função e dedicar um tempo especial a esse pequeno exercício de síntese.
Atualmente, a maioria dos periódicos publica on-line e disponibiliza seus artigos por meio de repositórios digitais, resumidores e indexadores. Assim, é importante saber que os metadados do artigo (dados que oferecem a descrição bibliográfica do documento) oferecem as informações necessárias para a recuperação dos artigos e a dinamização do acesso, em meio ao grande volume de trabalhos disponíveis.
A boa descrição dos dados referentes a um documento é um dos princípios norteadores da ciência aberta. Quanto maior precisão nesses elementos, maior a probabilidade de que o artigo seja encontrado pelos sistemas de busca e seja acessado pelo pesquisador interessado naquele tema. Desse modo, verifica-se que um resumo bem elaborado aumenta a difusão e o potencial de citação do artigo. O alinhamento do título com o artigo, a seleção precisa das palavras-chave e a organização objetiva das informações no resumo são ferramentas que os autores têm a seu favor para conseguir um “lugar ao sol” em meio à infinidade de conteúdos que domina o mundo digital hoje.
Nesse sentido, por exemplo, não é ao acaso que os periódicos limitam a quantidade de palavras nos artigos. Isso se deve, em parte, por uma questão de custo-benefício e por critérios estabelecidos pelos serviços de sumarização, que necessitam de resumos ajustados a sua base de dados. Considerando que muitos desses serviços restringem a oferta de dados apenas ao título e ao resumo dos artigos (remetendo então o leitor interessado ao site oficial do periódico), o limite de palavras é uma condição que deve ser respeitada, visto que resumos maiores que o recomendado terminam sendo cortados.
Um bom resumo deve trazer em si a essência do texto a que se refere, sendo fiel a este, ou seja, informando com exatidão o propósito e o conteúdo do artigo, e evitando trazer informações que não apareçam no corpo do manuscrito.2, 3 Ao preparar seus resumos, os autores devem estar atentos ao formato especificado pelo periódico ao qual pretendem submeter seu trabalho, visto que pode haver diferenças entre as normas de cada revista. Além dos autores, os editores do periódico ao qual o manuscrito foi submetido também devem se preocupar em garantir que haja coerência entre o resumo e o texto. Um resumo que não é coerente com o artigo, certamente será devolvido aos autores para reformulação por ocasião da avaliação por pares.
De acordo com Mauricio Gomes Pereira (2014, p. 168), em relação ao conteúdo, há dois tipos de resumo: indicativo ou informativo. Já no que se refere à forma de apresentação, o resumo pode ser classificado como narrativo ou estruturado. O Quadro 1 apresenta uma síntese das características de cada um.

Quadro 1 – Tipos de resumo de artigo científico


Em relação ao conteúdo
Resumo indicativo (ou descritivo)
Aponta para o que trata o artigo, incluindo a finalidade, o alcance ou a metodologia, mas não os resultados, as conclusões ou as recomendações; empregado em certas categorias de comunicação científica, como atualizações, pontos de vista e revisões não sistemáticas; não é apropriado para artigos originais.
Resumo informativo
Contém a essência do artigo, abrangendo a finalidade, o método, os resultados e as conclusões ou recomendações; expõe detalhes suficientes para que o leitor possa decidir sobre a conveniência da leitura de todo o texto; modalidade requerida para artigos originais, revisões, especialmente as sistemáticas, e relatos de caso.

Em relação à forma de apresentação
Resumo narrativo (tradicional, convencional, livre ou não estruturado)
Apresenta as informações em texto corrido em geral, em um só parágrafo.
Resumo estruturado
Subdividido em seções ou parágrafos, em que cada qual revela um aspecto relevante do artigo. Cada subdivisão tem um título, que funciona como orientação para facilitar a leitura.
Fonte: Pereira (2014, p. 168).


Na área de Ciências da Saúde, a maioria dos periódicos trabalha com a modalidade de resumo informativo estruturado, em atenção às recomendações do Comitê Internacional de Editores de Periódicos Médicos (International Committee of Medical Journal Editors – ICMJE),4 também conhecidas como normas Vancouver. Esse tipo de resumo funciona como uma “miniatura” do artigo, oferecendo igualmente a divisão em objetivo, métodos, resultados e conclusão. Alguns periódicos adotam ainda uma seção a mais, a introdução (Quadro 2).

O resumo estruturado apresenta inúmeras vantagens tanto para os autores, quanto para os editores e leitores, a quem, afinal, o artigo se destina. Para os autores, ele pode funcionar como um norte na elaboração do artigo; para os editores, ele pode ajudar na detecção de erros metodológicos ou da falta de informações adequadas sobre a pesquisa; e, para os leitores, pode contribuir para facilitar a apreensão do texto.1

Quadro 2 – Seções do resumo informativo estruturado

Item
Conteúdo
Introdução
Situa o estudo em relação ao contexto em que se insere.
Objetivo
Apresenta de forma sucinta a proposta do artigo ou a questão formulada pela pesquisa.
Métodos
Aponta, entre outros, tipo do estudo, base de dados utilizada, participantes, recorte espacial/temporal e/ou materiais utilizados.
Resultados
Informa o(s) principal(is) achado(s) do estudo.
Conclusão
Apresenta inferências ou implicações levantadas pela pesquisa. 

Vale ressaltar, no entanto, que um resumo não é mera repetição de frases pinçadas do texto. Os autores podem se valer de trechos retirados do corpo do texto, mas devem ter o cuidado de reelaborá-los, a fim de adequá-los ao tamanho e à função do resumo.
Por fim, para auxiliar na elaboração do resumo, os autores podem fazer uso de checklists disponibilizados em manuais de redação. No box a seguir, deixamos a sugestão de alguns pontos a serem verificados antes de enviar seu artigo para uma revista.


O resumo...
1) apresenta de forma clara qual é o tema do artigo?
2) apresenta de forma clara qual é o objetivo do artigo?
3) informa de forma breve como a pesquisa foi realizada?
4) aponta de forma concisa os achados e sua relevância?
5) indica a discussão proposta pelo artigo?
6) não apresenta informações contraditórias em relação ao artigo?
7) está bem redigido de acordo com a norma culta da língua?
8) obedece o limite de palavras estabelecido nas normas da revista?
9) é compreensível para o leitor?
10) é capaz de atrair o interesse do leitor para o artigo?


Referências

  1. PEREIRA, Mauricio Gomes. Artigos científicos: como redigir, publicar e avaliar. Rio de Janeiro: Guanabara; Koogan, 2014.
  2. SILVA NETO, Norberto Abreu. Sobre o parágrafo mais importante do artigo científico. Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, v. 15, n. 3, p. iii-iv, dez. 1999. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ptp/v15n3/01.pdf>. Acesso em: 13 abr. 2018. 
  3. PEREIRA, Mauricio Gomes. O resumo de um artigo científico. Epidemiol. Serv. Saúde, Brasília, v. 22, n. 4, p. 707-708, out.-dez. 2013. Disponível em: <http://scielo.iec.gov.br/pdf/ess/v22n4/v22n4a17.pdf>. Acesso em: 13 abr. 2018. 
  4. ICMJE – International Committee of Medical Journal Editors. Recomendações para a elaboração, redação, edição e publicação de trabalhos acadêmicos em periódicos médicos. Tradução de Eliane de Fátima Duarte. Epidemiol. Serv. Saúde, Brasília, v. 22, n. 4, p. 709-732, out.-dez. 2013. Disponível em: <http://scielo.iec.gov.br/pdf/ess/v22n4/v22n4a18.pdf>. Acesso em: 13 abr. 2018. 

* Laeticia Jensen Eble – servidora do Ministério da Saúde (MS), integra a Secretaria Executiva da RESS. É bacharel e licenciada em Letras, mestre e doutora em Literatura e Práticas Sociais pela Universidade de Brasília. Pesquisadora do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, também é editora da revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea e da revista Veredas, da Associação Internacional de Lusitanistas. É membro da Brazilian Studies Association, da American Portuguese Studies Association e da Associação Internacional de Lusitanistas. 














sexta-feira, 6 de abril de 2018

Dia mundial da atividade física

Photo by Robert Collins on Unsplash


Hoje, 6 de abril é comemorado o Dia Mundial da Atividade Física. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a inatividade física é um dos principais fatores de risco para morte prematura por doenças não transmissíveis.  Por outro lado, a atividade física regular está associada à redução dos riscos de doença cardíaca, diabetes e câncer de mama e cólon, e com melhoria da saúde mental e qualidade de vida. 

quinta-feira, 15 de março de 2018

1º Ciclo de Estudos de 2018 apresenta tema relacionado à saúde da mulher

"Saúde Brasil 2017: os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e indicadores relacionados à Saúde da Mulher" será o tema do primeiro Ciclo de Estudos de 2018, no dia 23 de março. O evento, realizado pela Secretaria de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde, acontecerá no auditório do Edifício PO 700, entre 15h e 17h, com transmissão ao vivo pela internet.
Entre os temas que serão discutidos está a adequação do pré-natal e indicações de cesária por grupo de risco epidemiológico e questões sobre estupro e gravidez de adolescentes no Brasil. Na oportunidade será apresentada uma análise de dados, entre 2000 e 2015, sobre a mortalidade materna no Brasil.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Cadastro de pareceristas


A revista Epidemiologia e Serviços de Saúde (RESS) convida os interessados a colaborar como avaliadores de manuscritos.

A RESS é um periódico científico, de acesso livre, editado pela Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (SVS/MS). A revista está indexada em: Medline, SciELO, Scopus, ESCI/WoS  Lilacs, entre outros.

PRÊMIO JOVEM PESQUISADOR BRASILEIRO DE DESTAQUE NO BRASIL


“Medalha Ruth Nussenzweig”

Escopo

O prêmio (“Medalha Ruth Nussenzweig”) será concedido ao jovem pesquisador brasileiro (até 10 anos de doutorado) que tenha realizado contribuições para o estudo de malária. O objetivo não é premiar teses de doutorado recém-defendidas, mas jovens pesquisadores que venham se destacando na área. Sendo, assim as candidaturas devem se restringir àquelas que efetivamente representem uma contribuição de significativo impacto na área. 


quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

VII Reunião Anual do SciELO


Por Laeticia Jensen Eble* 

No dia 12 de dezembro de 2017, na Fapesp, em São Paulo (SP) aconteceu a VII Reunião Anual do SciELO, que contou com a presença de editores e membros das equipes editoriais dos periódicos do Brasil que compõem a coleção SciELO Brasil. A RESS esteve presente com a participação da editora-executiva, Elisete Duarte, e Laeticia Jensen Eble, da equipe editorial.